Inclusão de deficientes: um desafio para a sociedade





No dia em que se celebra a Luta da Pessoa com Deficiência no país, segundo os especialistas, a falta de inclusão começa no básico: na saúde
Por LETICIA FONTES
21/09/20 - 03h00

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Lak Lobato lançou livros que incluem a comunidade com deficiência auditiva na literatura

Foto: Ana Erica Monte Morbiol/Divulgação


"Todos são iguais perante a Lei, sem distinção, de qualquer natureza, garantindo-se a todos a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Isso é o que estabelece a Constituição Brasileira. Mas a realidade é bem distante do que prevê a lei, a começar pela inclusão das pessoas com algum tipo de deficiência. A estimativa é que quase 24% da população brasileira, o equivalente a 45 milhões de pessoas, possuem algum tipo de deficiência. Porém, segundo os especialistas, a falta de inclusão vai além do trabalho e do preconceito.A invisibilidade começa no básico, na saúde. No dia em que se celebra a Luta da Pessoa com Deficiência no país, apesar das obrigatoriedades legais, os dados não são animadores.


Para se ter uma ideia da falta de investimentos, dos R$ 7,3 bilhões previstos no Orçamento do Estado para 2020 para área da saúde, está estimado apenas 0,51% deste total para a assistência a pessoa com deficiência. O Portal da Transparência mostra que dos R$ 38 milhões previstos aos programas de cuidados a pessoas com deficiência, até o momento, somente R$ 13 milhões foram utilizados pela administração estadual.

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Apesar da peculiaridade da pandemia do novo coronavírus neste ano, a situação não é muito diferente dos anos anteriores. No ano passado, R$ 49,9 milhões estavam previstos na Lei Orçamentária para serem destinados aos programas de assistência, mas apenas 19% (R$ 9,7 milhões) foi gasto. Já em 2018, foi pago apenas R$ 17,9 aos programas, o equivalente a 38% do orçamento disponível.

De acordo com o professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Ricardo Alexandre de Souza, em Belo Horizonte, a maioria das pessoas com deficiência usam o SUS. O docente participou de uma pesquisa que está sendo desenvolvida por professores da UEMG e da UFMG para traçar o perfil da pessoa com deficiência na capital.

"O SUS de fato é o suporte na saúde na maioria dessa população. Falta muita coisa, a começar pelo básico. Se houvesse estrutura para identificar e cuidar da deficiência o quanto antes, maior seria a possibilidade de cura ou qualidade de vida dessas pessoas. Fala-se muito em reabilitação, que é muito importante, sim, mas falta investimento da atenção primária. Nas faculdades, não existe um preparo para lidar com pessoas com deficiências. Mas é inegável que o SUS é melhor do que a maioria dos planos de saúde no quesito assistência à pessoa com deficiência, porque, na rede privada, se limita a quantidade de consultas e muitas vezes a oferta de serviços é muito menor", avalia o professor. "Infelizmente, o SUS tem que fazer um escolha de Sofia, ele cuida de mais gente ou daquilo que é mais raro ou grave?", questiona.

Drama.

Há mais de um ano e meio, o empresário Rodrigo Dorneles, 36, não consegue agendar os atendimentos da filha Yasmin, de 9 anos, pelo Sistema Único de Saúde. A pequena é autista e deficiênte auditiva. "Ela precisa de uma série de terapias, incluindo psicólogos, terapia ocupacional, fisioterapias. O desenvolvimento está estagnado, porque ela precisa disso para continuar. Eu, como pai, fico frustrado. Tive que começar a pagar um plano de saúde, mas não adiantou nada, porque o atendimento à pessoa com deficiência não é prioridade em nenhum lugar. Mesmo pagando a gente não consegue dar prosseguimento, estou na fila de espera com ela", lamenta.



"Quando levo ela ao médico por um problema comum em qualquer criança, vejo que as pessoas tem medo, não colocam soro nela, porque não sabem lidar com a agitação. É um aprendizado que todos deveriam ter, porque eu aprendo todos os dias com ela. São os pais que tiram os filhos de perto dela, é família que se afasta e fala que ela só me dá problema. O sonho é que o diferente não fosse um problema".

Escritora para surdos busca desmistificar a deficiência auditiva no Brasil

Imagina acordar e perceber que você perdeu completamente a audição? Algumas semanas antes de completar 10 anos, a carioca Lak Lobato acordou e percebeu que não ouvia mais. A escritora ficou 22 anos sem a audição até que, após uma cirurgia de implante coclear, voltou a ouvir.

Hoje, aos 43 anos, ela luta pela inclusão dos surdos no Brasil, desmistificando o termo no seu blog, "Desculpe, não ouvi!", e em seus livros. “Quando perdi a audição de um dia para o outro, eu tive perda súbita durante o sono. Nenhum médico me deu um diagnóstico do que aconteceu. Sempre fui uma pessoa muito auditiva, gostava de ouvir música e conversar, foi muito difícil para mim. Pensa: passar a mão no cabelo, na calça jeans, tudo isso faz barulho. Tive que me redescobrir", conta a escritora, que é ativista na luta pela inclusão dos surdos oralizados – surdos que utilizam qualquer língua oral para se comunicar.

"Eu não tinha até então afinidade com a leitura, mas desde então, ler, se tornou meu passatempo, porque era algo que eu conseguia fazer com facilidade, diferente de assistir televisão, ouvir música ou participar de uma roda de conversa. Mas falar de surdez nunca foi meu sonho, foi algo que surgiu. Nós vivemos num mundo extremamente capacitista, que olha a pessoa com deficiência como uma coitada ou como um super-herói. O ruim desses extremos é que ela dificilmente é vista como alguém que tem as mesmas potencialidades, que pode contribuir, que tem muito a oferecer, desde que ela encontre acessibilidade e inclusão", pontua a Lak.

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